quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Democracia e a Ética do meio termo de Aristóteles

As pessoas aprendem a ser democratas na vida em grupo e na luta política conjunta, por este motivo, viver uma Democracia representativa - de fato - requer tempo, participação conjunta e aprendizado. Ninguém, ao iniciar-se nesta escola democrática inicia-se imediatamente  na ética do meio termo de Aristóteles. Pelo contrário todo início é difícil, porque o conhecimento tácito existente sobre o assunto não é facilmente transferível, pois a convivência, que propicia que o conhecimento democrático seja transferido, muitas vezes não acontece.
Ninguém se inicia na luta democrática através da ética de meio termo aristotélica. Quando as instituições políticas não mais atendem à maioria do povo e o povo não tem modelos de aprendizado, desenvolve-se um gradiente extremista: que apresenta de um lado os apáticos, os desanimados (que significa sem alma), acomodados e do outro, os vândalos. Em meio aos dois a violência!
Luis Althusser fala em AIE - Aparelhos Ideológicos do Estado , que são as instituições que hoje, especialmente, estão desgastadas e  não atendem mais aos anseios conjuntos do povo brasileiro. A própria educação, por força do Mercado, acaba por transmitir de forma engessada os valores, idéias, crenças, comportamentos vinculados aos interesses da classe dominante. Isto, em detrimento da transmissão dos conteúdos dos saberes construídos e sistematizados historicamente. A educação não tem conseguido ir além do Mercado.
A esfinge está no meio desta estrada que leva à Democracia e não se sabe a pergunta que ela traz e nem a resposta.  Tudo está sendo tecido e a apatia e o vandalismo são maus conselheiros. No entanto só se aprende a Ética do meio termo na luta política diária e conjunta contra as injustiças, porque a ética do meio termo nao é uma sanção.

A Dialética da Democracia no século XXI se representa numa avalanche de transformações. Tese, antítese e síntese se desmancham no ar.

TE MEGALA PANTA EPISPHALE - “Tudo que é grande precipita-se numa avalanche de transformações”. (Platão, apud Carneiro Leão, Filosofia Contemporânea, 2013). 

A aprendizagem da ética do meio termo exige tolerância aos desvios iniciais. É possível desenvolver a tolerância e a paciência e aprender  a ética do meio termo em meio a esta  avalanche de transformações ?




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domingo, 13 de outubro de 2013

A origem da família e a Civilização

Continuando a prospectar a origem da família, vejamos uma análise do processo que conduziu os povos da barbárie à civilização, no julgamento da civilização por Morgan (1818 - 1881) -  Lewis Henry Morgan - homem de ciência norte-americano, etnógrafo e historiador da sociedade primitiva.

"Desde o advento da civilização, chegou a ser tão grande o aumente da riqueza, assumindo formas tão variadas, de aplicação tão extensa, e tão habilmente administrada no interesse dos seus possuidores, que ela, a riqueza, transformou-se numa força incontrolável, oposta ao povo. A inteligência humana vê-se impotente e desnorteada diante de sua própria criação. Contudo, chegará um tempo em que a razão humana será suficientemente forte para dominar a riqueza e fixar as relações do Estado com a propriedade que ele protege e os limites aos direitos dos proprietários. Os interesses da sociedade são absolutamente superiores aos interesses individuais, e entre uns e outros deve estabelecer-se uma relação justa e harmônica. A simples caça à riqueza não é a finalidade, o destino da humanidade, a menos que o progresso deixe de ser a lei no futuro, como tem sido no passado. O tempo que transcorreu desde o início da civilização não passa de uma fração ínfima da existência passada da humanidade, uma fração ínfima das épocas vindouras. A dissolução da sociedade ergue-se, diante de nós, como uma ameaça; é o fim de um período histórico — cuja única meta tem sido a propriedade da riqueza — porque esse período encerra os elementos de sua própria ruína. A democracia na administração, a fraternidade na sociedade, a igualdade de direitos e a instrução geral farão despontar a próxima etapa superior da sociedade, para a qual tendem constantemente a experiência, a razão, e a ciência. 

Será uma revivescência da liberdade, igualdade e fraternidade das antigas gens, mas sob uma forma superior." 

(Morgan, A Sociedade Antiga, pág. 502; citado por Frederich Engels, em A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, pag. 142-143).

sábado, 12 de outubro de 2013

Familia Sociedade e Estado

Houve uma época na história da humanidade em que os homens e mulheres viviam em um tipo de sociedade chamada gentílica  que tinha um grande espírito comunitário. Não havia divisão sexual do trabalho pois todos faziam as mesmas tarefas, desde plantio, cuidado com as crianças e velhos,  conselho e normas. Era a época do Matriarcado. No Matriarcado o casamento era grupal - ou seja todos os homens casavam com todas as mulheres - e a mãe era o elemento mais importante da sociedade gentílica. Todo guerreiro sabia quem era a sua mãe, mas o pai poderia ser qualquer homem. Quando na mente humana surgiu o traço da conquista de outros povos, o eixo paradigmático da história deslocou-se para a necessidade de conhecer novas tribos e conquistar riquezas, e os homens que viviam na sociedade gentílica - junto com as mulheres - saíram da tribo em busca de tesouros e ocorreu a primeira divisão sexual do trabalho: as mulheres ficavam na comunidade gentílica e os homens saíram para conquistar riquezas e outros povos. 

Na época do matriarcado, tudo era concebido de forma interligada: as pessoas; o ser humano e a Natureza; os deuses, tudo deveria ser honrado e respeitado, pois a vida era considerada sagrada, parte da Divindade.
Com o passar da  história os homens que voltavam carregados de tesouros, de riquezas começaram a questionar sobre quem eram os seus filhos, para deixar a sua herança. Começava aí a semente da acumulação de bens. Nesta configuração histórica o eixo do Matriarcado desloca-se para o Patriarcado e o casamento que era grupal passa  a ser monogâmico. Ou seja o casamento monogâmico não tem nada a ver com a igreja e sim com o espírito de acumulação de bens.

Ora, pode-se afirmar que a família tradicional, que conhecemos hoje, foi fundada em cima da acumulação de riquezas, ou seja é fruto e se aperfeiçoou em cima do modelo Capitalista. Ela perdeu os vínculos comunitários da sociedade gentílica e fechou-se em si mesmo, rompendo definitivamente os laços sociais que a prendem à Comunidade..
Tocqueville tem um texto que retrata com muita delicadeza esta perda dos laços comunitários da família:
"Cada pessoa, mergulhada em si mesma, comporta-se como se fora estranha ao destino de todas as demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ela a totalidade da espécie humana. Em suas transações com seus concidadãos, pode-se misturar a eles, sem no entanto vê-los; toca-os, mas não os sente; existe apenas em si mesma e para si mesma. E se, nestas condições, um certo sentido de família ainda permanecer em sua mente, já não lhe resta sentido de sociedade."  (Tocqueville, Apud Richard Sennett em o Declínio do Homem Público).
A Família monogâmica - tal qual conhecemos hoje - e a Sociedade já nasceram separadas, por uma questão de acumulação. Ou seja há uma fragmentação, separação, exclusão,  quando se pergunta: quem são os meus filhos? . No entanto há uma questão sociológica, pois a sociedade está dentro do indivíduo, como cultura, linguagem, crença, mitos.  

Há um paradoxo insolúvel. Do lado de dentro laços profundos unem cada indivíduo com a sociedade e do lado de fora uma cisão leva cada um a trancar a porta e a desconhecer tudo e todos que se afastam dos laços sanguíneos.
A família é o núcleo central da Sociedade  e do Estado. Nasceram juntos e juntos se transformam. Quando a família  muda é porque grandes mudanças se avizinham. E a família está mudando.

Que novos paradigmas de família, sociedade e Estado estão sendo gestados na mente humana? A Filosofia não tem respostas, só indagações.




terça-feira, 24 de setembro de 2013

As Uma visão das propriedades da mente - Um estudo sobre liderança e o ser humano

A força criativa é a 1ª. propriedade da mente humana, que é social por natureza. Isto significa que precisamos do outro para aprender. Precisamos do grupo para sermos nós mesmos. Nosso individualismo passa por conexões comunitárias.
A 2ª. propriedade da mente humana é a construção da informação, que se dá de forma conjunta e participativa. A informação é criada pelo ser humano no interior de sua própria mente, a partir da bagagem que possui. Por este  motivo podemos dizer que não se passa informação,  passam-se mensagens e o sujeito cria a informação em sua mente, lendo a mensagem, a partir de sua bagagem. Usando uma metáfora podemos dizer que a bagagem é criada pelo indivíduo, no dia a dia, mas a mochila que  usa foi construída pela comunidade, pelo grupo e incorporada por ele através da linguagem, da imitação, da convivência, da experiência conjunta, do diálogo, da participação conjunta.
A 3ª. propriedade da mente humana é a socialização da informação, querendo afirmar com isso que o ciclo de aprendizado da mente se inicia  a partir da imersão do sujeito em debates, diálogos, troca de idéias e finda com a pessoa operacionalizando a vida de forma diferente, porque aprendeu uma nova forma de fazer. Está correto o mito de Hércules que afirma que as maçãs douradas estão nas mãos do outro.
Nesta viagem em direção a si mesmo, cada indivíduo constrói de forma conjunta o conhecimento e vai tecendo com novos fios a sua mochila, renovando o bornal de viagem, porque aprende também novos valores, novos conceitos, novas atitudes, novas visões de mundo, uma nova forma de pensar.

A 4ª. propriedade da mente tem a ver com mimese, ou seja, a capacidade que a mente possui de ser um campo onde idéias e conceitos se debatem até que algo novo substitua as antigas posturas. Nossa mente é povoada de memes que segundo  Richard Dawkins são para a cultura o que o DNA é para a Biologia. Qualquer  idéia ou conceito pode ser transmitida de um indivíduo para outro através da comunicação escrita (conhecimento explícito) ou através da convivência, das interações que fazemos com o grupo, da comunicação oral, do contato direto com as pessoas (conhecimento tácito). A vida conjunta, a convivência, a vizinhança, o trabalho reforçam os laços de aprendizagem . As propriedades da mente são também propriedades da informação, podem ser reconhecidas como propriedades do grupo. No entanto esta riqueza pode ser perdida se o líder e seu grupo não perceberem o pote de ouro no final do arco-íris, que simboliza uma nova aliança.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Zygmunt Bauman - Sobre a sociedade

A nova sociedade individualizada é um fenômeno global, que surge localizado, a partir do deslocamento do eixo para um novo paradigma cultural, a partir do qual homens e mulheres constroem conhecimento no qual a matéria prima para gerar riquezas, é o indivíduo, o local, a vizinhança, as relações próximas. 
Quando Deus perguntou a Caim onde estava Abel, Caim replicou, zngado, com outra pergunta: “Sou por acaso o guardião de meu irmão?”. O maior filósofo ético do nosso século, Emmanuel Levinas, comentou que dessa pergunta zangada de Caim, começou toda a imoralidade. É claro que sou o guardião do meu irmão; e sou e permaneço uma pessoa moral enquanto não pergunto para uma razão especial para sê-lo.Quer eu admita, quer não, sou o guardião do meu irmão, porque o bem-estar do meu irmão depende do que eu faço ou do que eu me abstenho de fazer. E sou uma pessoa moral porque reconheço esta dependência e aceito esta responsabilidade que ela implica. No momento em que questionao esta dependência, e, peço comofez Caim, que medêem razões para que eu me preocupe, renuncio à minha responsabilidade e deixo de ser um ser moral. A dependência de meu irmão é que me faz um ser ético. A dependência e a ética estão juntas, e juntas elas caem (BAUMAN, Sociedade Individualizada, 2008).


Como superar este momento e não entrar em pânico, já que está em risco o próprio enfraquecimento do ser, alijado de uma história coletiva? 
Resta às pessoas, aos grupos e comunidades voltarem-se sobre si mesmas e buscarem encontrar suas próprias soluções, re-inventarem vidas, protagonizarem histórias, dando um novo sentido às experiências individuais e coletivas - as Erlebnis e Erfahrung de Walter Benjamin (2008) . 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ação social em Weber

Weber  (1864 - 1920) foi um economista alemão, jurista e classicamente é considerado um dos fundadores da Sociologia.

Para Weber a sociedade pode ser compreendida a partir do conjunto das ações individuais e Weber diz que a ação social é o que o indivíduo faz, orientando-se pela ação de outros. Complementando, a ação social se dá em nível tácito e aqui a voz não é o elemento mais importante, mas o gesto, a atitude, o comportamento, são os mobilizadores das ações sociais.

Weber estabeleceu quatro tipos de ação social. Segundo ele,  são conceitos que explicam a realidade social, mas não são a realidade social: Ou seja a realidade é muito maior, pois compreende os atores, as tecnologias, o contexto e as práticas que tecem a Rede integrada e interagente de ações sociais,  

São as seguintes as ações conceituadas por Weber e aqui faço algumas considerações fruto de estudos sobre o autor.
1 – ação com relação a valores: crença num valor considerado importante - Ou seja nos identificamos com certos valores e nos afastamos de outros - identidade e rejeição. Esta valoração nos levará a posturas e práticas na rede intrincada de ações sociais;
2 – ação afetiva: determinada por afeições - Aqui as ações são pautadas pelas afeições, independente de valores que possam sustentar a ação; 
3 – ação com relação a fins: ação pautada em objetivos e que organiza os meios necessários.- ação que não é sustentada nem por valores, nem por afetos, mas pelos objetivos a serem alcançados e a partir desta ideologia organiza os meios necessários;
4 – ação tradicional: determinada por um costume ou um hábito arraigado - ação que é mobilizada pela tradição vigente, pode-se falar aqui em ação como fato social, posturas e práticas "aprendidas", "incorporadas" e que são parte do legado cultural, uma razão  herdada.

Há uma teleologia na rede e não se sabe qual a finalidade - a resultante final - pois disputam entre si os valores, os afetos, os objetivos e a tradição. Para Weber, as regras e normas sociais não são exteriores aos indivíduo. Para ele as normas e regras sociais são o resultado do conjunto de ações individuais.


Ou seja a reforma política não é externa ao ser humano, antes passa por uma reforma da mente e não se sabe qual é o fim, pois novas variáveis continuam sendo tecidas tacitamente e a mente é o grande palco onde tudo acontece.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Experienciando uma Interpretação Filosófica da parábola "O argueiro no olho"

Parábola contada pelo Rabi de Nazaré para ensinar aos ouvintes.  Fiz uma interpretação do ensinamento.
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Parábola: Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu? 

Esta parábola é uma metáfora para compreender o  significado dos  novos paradigmas. Na maioria das vezes não percebemos  as pequenas mudanças em nós ou a nossa volta ou não as valorizamos, mas elas se instalam e parafraseando  José Saramago, nenhuma mudança é repentina, pois  o destino leva tempo a se decidir. É como se tivéssemos um argueiro no olho, que nos impede de vermos o quadro real. A questão é que na imensa maioria das vezes nos perdemos em críticas e ao invés de focarmos na solução dos problemas, nós investimos nossa criatividade nos conflitos..
Esta parábola remete ao dogmatismo, quando acreditamos que o outro diante de nós está interpretando a tudo de uma forma errada. Temos as nossas certezas e acabamos por nos tornar etnocêntricos, acreditando que quem não pensa como nós está errado. Na verdade, é fundamental entender que nenhuma interpretação da vida é desligada da experiência de quem a construiu. Isto se chama relativização, ou seja, é fundamental compreender que  toda interpretação é resultado de uma vivência e no máximo nos cabe, gentilmente, dizer ao outro: não penso como você, para mim, esta questão tem um outro significado. E se valer a pena, se a pessoa for muito importante para você, mostrar como você vê o problema, com delicadeza, sem antagonizar..
Na verdade, a metáfora se refere a um cego guiando outro cego, pois dentro da visão dogmática, o outro para nós simplesmente não existe, não o reconhecemos, nem o respeitamos e nesse compasso se instala a indiferença, tão prejudicial nos relacionamentos. A realidade é que cada um de nós interpreta a tudo de um  jeito próprio, de acordo com a bagagem que se tem e certamente sempre existirão diferenças entre as visões das pessoas. Distintas experiências ajudam a  complementar as maneiras de ver o mundo e delinear juntos uma solução mais inteligente, que enxerga muito mais, por acréscimo da maneira de ver do outro.
A maior diferença entre s pessoa não é tanto de gênero, cor ou orientação sexual, mas sim a forma de pensar, de resolver problemas, de criar soluções. E esta propriedade  da mente pode ser usada em favor da vida em grupo, pois nenhuma solução é isolada ou individual, pois sempre existe mais de uma pessoa envolvida nos contextos.
Na verdade ficar olhando o problema não é a melhor alternativa para encontrar a solução, a experiência tem mostrado que focar no contexto que gerou o problema é parte da  solução. E quando se integram pessoas neste esforço, a solução criativa acontece, porque nada é isolado.
Nas organizações empresariais esta metáfora do argueiro no olho remete ao enfraquecimento  do profissional, do administrador, do gestor, porque pessoas e soluções se perdem na ilusão de que só existe uma forma de resolver os problemas. Na verdade as pessoas pensam diferente  umas das outras e esta é a riqueza do mundo, a mente é social e colaborativa, de uma complexidade e simplicidade indescritível.

Em nível pessoal, as pessoas se perdem porque ficam olhando os defeitos dos outros e isto se for realizado por muito tempo, acaba por gerar um entorpecimento mental, que não traz a tão sonhada capacidade criativa para resolver problemas e impede a pessoa de enxergar os novos caminhos, as soluções inteligentes, que já estão ali, mas estão embaçadas pela visão individualista.