quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Carl Gustav Jung - Nascemos originais e morremos cópia

A vida em sociedade constitui-se em um paradoxo da informação, neste sentido Jung dizia que todos nós nascemos originais e morremos cópias - mimese mútua eu diria. No aprendizado colaborativo findamos por acabar parecidos uns com os outros. 

Mas  para aprender uns com os outros, uma boa dose de amor é necessária, e com amor o processo de aprendizagem fica mais fácil, pois quando se admira, se respeita alguém, quer-se  absorvê-la, imitá-la, copiá-la. E assim, nesta troca aprende-se a amar verdadeiramente, pois onde o amor cresce, o desejo de poder minimiza-se; ao contrário onde o poder predomina, há falta de amor. "Um é a sombra do outro" diria Carl Gustav Jung. 

Só com amor seremos cópias mais fortes uns dos outros, com mais tinta e poderemos impregnar a vida uns dos outros com novas cores, mais brilhantes.

Ao final de todo esse processo de aprendizado mútuo -  filosoficamente falando -  um dia seremos UM.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Hegel - Entre Resultados e Processos

Hegel dizia que avaliar o processo é tão importante quanto avaliar o resultado, pois resultados são cadáveres que o processo em suas várias trajetórias deixa para trás. No resultado você olha para uma variável que restou ali imóvel em sua in-completude. Mas quando você observa o processo que fez chegar aquele resultado você inclui mais variáveis, mais responsabilidades.

Digo isso ao refletir - no campo ético – sobre o que aconteceu na Rocinha envolvendo abuso de menores. Se olharmos o resultado, condenaremos os pais, as mães, o cabeleireiro e até as meninas. Mas olhando o processo teremos que avaliar as práticas do governo e da sociedade como um todo, e neste ponto nenhum de nós pode deixar de ser chamado para falar de sua contribuição nesse quadro.

Uns dirão, não tenho nada com isso, estes – certamente - abandonaram o barco há muito tempo – este que ficou à deriva. Outros ainda dirão: O que eu poderia ter feito? E o certo é que a esfinge continua esperando de cada um uma resposta e o tempo está passando e temos que juntos descobrir o enigma.


Digo tal qual Saramago:
“O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha reta. O nosso grande engano - devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente – é pensar no destino como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se”

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O Encontro do Amor - O sonho em Cecília Meireles



Só o amor verdadeiro  é capaz de quebrar barreiras, de fazer com que você seja uma pessoa melhor! Utópico ou real - o amor verdadeiro - transforma e te faz uma nova pessoa. É deste amor que Cecília Meireles fala em seu poema.



Meu Sonho (Cecília Meireles)

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

Mesmo significando este encontro tão fugidio, o amor verdadeiro vale a pena ser vivido, porque é ele que dá a dimensão de quem você é.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Richard Sennett - A cooperação como uma habilidade

Richard Sennett em seu livro "Juntos" fala da Cooperação como uma habilidade" - ou seja é desenvolvida em conjunto, de forma participativa e se incorpora nos indivíduos como um conhecimento tácito, passando a fazer parte do comportamento.

Daí se depreende que uma pessoa cooperativa está inserida em um grupo e que a forma de trabalhar cooperativa se transmite pela convivência. Pode-se dizer que é um meme - uma idéia - um vírus que passa de mente para mente em um grupo e que se torna parte da história do trabalho, da cultura daquele grupo.

Quando não se trabalha junto ou quando o indivíduo está isolado, excluído, corre o risco de perder esta habilidade. Por outro lado, dentro de um grupo se alguém inicia o processo cooperativo isto se transmite de forma tácita - e com o tempo - os indivíduos passam a se interessar pelos afazeres uns dos outros, para aprender e para ajudar.

A cooperação é a habilidade que fundamenta a construção do conhecimento, pois somos animais sociais e como diz Bakhtin "a intersubjetividade é anterior à subjetividade"ou seja, para sermos nós  mesmos (sujeitos), temos que primeiro dialogar, cooperar, observar, copiar, imitar, para só depois nos individualizarmos.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Nos tempos de crise a Linguagem reencontraria a sua utilidade

Matérias hoje em O Globo: Menina escapa de massacre na França; Mulher baleada em PAM por policiais; Versão para Código Penal gera polêmica; Escola de Realengo - após o massacre  - dá aula de superação.  (Em 07/09/2012 - O GLOBO).

Para entender estes acontecimentos, fico com as palavras de Michèle Petit - em "Arte de Ler - ou como resistir à adversidade", que em seu livro  cita Le Clezio, Haï, Paris, 1987.

"A doença, a loucura , os perigos de morte emergem, de tempos em tempos, e eles não são acidentes.  São os sinais da necessidade de se expressar. Os povos indígenas aprenderam a reconhecer estes sinais, sabem que a necessidade da linguagem está nessas crises. (...)
Quando surge um desses sinais ao acaso, no corpo de um homem, de uma criança, ou de uma mulher, é que toda a sociedade está ameaçada. (...)
Tudo o que havíamos refutado - é preciso que fale......"

No filme, Tiros em Columbine" o Diretor entrevista vários artistas e a pergunta era; "O que você diria ao assassino? " .  Um dos entrevistados -  Marilyn Manson - foi quem (estranhamente) deu a resposta mais intrigante. Ele disse:
___O que eu diria? Eu não diria nada, eu deixaria ele falar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A razão é histórica - Monteiro Lobato - Vinícius e tantos outros


Recentemente Monteiro Lobato foi proibido de ser lido nas escolas. Esta proibição se deu porque algumas poucas pessoas clamaram que Monteiro Lobato era um preconceituoso. O texto que foi demonizado definia Tia Anastácia como uma macaca subindo na árvore. Acredito que, se Monteiro Lobato escrevesse hoje - escreveria de outra forma. A razão - hoje- o faria empregar a palavra de uma forma mais cuidadosa, e sua linguagem seria mais amorosa e mais delicada.Creio que as pessoas esquecem de que a razão é histórica e a Inteligência é coletiva e isto significa que o ser social em cada um de nós tem a voz do nosso tempo. Hegel - filósofo alemão do século XIX - tem razão, quando afirma que a razão se transforma na história.

Por que não foi demonizado Vinícius de Moraes? Com a letra abaixo:

Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza,
Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora,
Qualquer coisa que sente saudade.
Um molejo de amor machucado,
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher,
Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão.

Os pais das crianças cantam vinícius. Os jovens cantam Vinícius. Vamos demonizar Vinïcius? Que insistiu em resgatar a mulher Amélia? Talvez hoje ele não escrevesse este poema. Não sei. Mas não vi nenhum movimento para retirar esta música de cartaz. Será que o motivo é que a nossa sociedade é fortemente patriarcal? Misógina? Racismo ou misoginia, que preconceito vai ganhar?

É preciso ter cuidado, pois este movimento de demonizar Monteiro Lobato impediu que se levasse para as salas de aula uma discussão do conceito de razão, historicidade e de se discutir o preconceito como uma marca social, mais que individual> Nossas crianças e jovens merecem mais respeito com sua inteligência. E nossos professores merecem  mais oportunidades de discutir a literatura e linguagem no tempo e no espaço.

E nem falo de Francisco Alves, que nunca foi demonizado e nem estudado, e que fazia toda a sociedade brasileira cantar as suas músicas. Uma delas dizia:
"Enquanto eu tiver forças para falar, olhos para ver hei de ter opinião, não é qualquer mulher que consegue dominar o meu coração. O tipo louro é um tesouro, mas perto do moreno é café pequeno...".

Se você quiser saber o finaL dessa música, faça uma busca na Internet pelas letras de Francisco Alves e veja a letra 216, chamada Tipo Sete.
http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/francisco-alves/1797

A razão é histórica e devemos aproveitar estes exemplos para ensinar e aprender. É preciso ter cuidado porque preconceito leva a preconceito! E onde impera o preconceito, racismo e misoginia florescem.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Ciclo da Aprendizagem - O grupo como matriz do indivíduo


O grupo é a matriz do indivíduo, porque é a partir da socialização que o sujeito desenvolve a sua forma de pensar, num amplo espectro de percepções, que permite ao ser humano ampliar seu ponto de vista sobre as questões. É justamente por este motivo que a atenção do líder tem que se voltar para o grupo, para perceber o que está sendo aprendido na troca de conhecimentos, no diálogo, na conversa.

Se quisermos solucionar problemas temos que voltar a nossa atenção para o grupo e captar como as pessoas se comportam quando interagem. desta forma vamos perceber habilidades, limitações e problemas que não perceberíamos se observássemos a pessoa  individualmente.

Um bom líder volta-se para o grupo e percebe o que não está sendo dito, capta os silêncios e estimula o diálogo - o processo de socialização de experiências pode criar uma lente especial, para dar sentido ao trabalho que está sendo realizado.

O espírito comum no grupo é obra de um líder capaz de ouvir, de dar voz a todos e de fazer com que todos se expressem, com confiança, sem receio de retaliações.

O Professor Paulo Freire fala, com muita propriedade, em ciclo gnosiológico, retratando no ciclo do conhecimento um fenômeno, a partir do qual o indivíduo enxerga o que antes não via. Podem ocorrer dois cenários: o indivíduo enxergou e sabe que é melhor ficar quieto, para não se indispor e se prejudicar ou o indivíduo enxerga e aprende com o grupo e desenvolve melhor o seu trabalho. Um líder tem obrigação de perceber qual dos dois cenários manifesta-se a partir de sua orientação pessoal. Nada acontece por acaso - o líder tem que se comprometer com o que acontece a sua volta, tem que se comprometer e dar sentido ao trabalho de cada um que trabalha sob sua direção.

Michel Serres em seu livro “Filosofia Mestiça” descreve o processo de aprendizado como a travessia de um grande rio no qual a transformação vai ocorrendo nas descobertas e nos enfrentamentos da busca pela outra margem. Quando nasce o espírito comum, o  grupo se fortalece e cada um recebe esta força. A questão aqui reside em saber: este espírito comum - ira, descaso, silêncio, medo, violência - surgiu como resposta à exclusão, às injustiças? Ou se ele surgiu como resposta a um esforço ético coletivo - diálogo, solidariedade, compreensão, bem comum - para viver o sentido de uma vida plena, de um trabalho repleto de significado?

O que impera no grupo:  autoritarismo ou democracia? As pessoas falam ou têm medo? As pessoas se expressam e contribuem com confiança? Liderança e democracia estão inextricavelmente conectados, provavelmente porque tanto um quanto o outro necessita do diálogo para crescer. 

Um líder autoritário enfraquece o Eu individual e o Espirito comum tem sua força moral fragilizada - neste caso o coletivo é pobre e volta-se para interesses pessoais -  o crescimento moral não acontece e como retratou o filósofo Tucídides ao escrever sobre a Guerra do Peloponeso - o bem comum fracassa imperceptivelmente.