quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O Encontro do Amor - O sonho em Cecília Meireles



Só o amor verdadeiro  é capaz de quebrar barreiras, de fazer com que você seja uma pessoa melhor! Utópico ou real - o amor verdadeiro - transforma e te faz uma nova pessoa. É deste amor que Cecília Meireles fala em seu poema.



Meu Sonho (Cecília Meireles)

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

Mesmo significando este encontro tão fugidio, o amor verdadeiro vale a pena ser vivido, porque é ele que dá a dimensão de quem você é.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Richard Sennett - A cooperação como uma habilidade

Richard Sennett em seu livro "Juntos" fala da Cooperação como uma habilidade" - ou seja é desenvolvida em conjunto, de forma participativa e se incorpora nos indivíduos como um conhecimento tácito, passando a fazer parte do comportamento.

Daí se depreende que uma pessoa cooperativa está inserida em um grupo e que a forma de trabalhar cooperativa se transmite pela convivência. Pode-se dizer que é um meme - uma idéia - um vírus que passa de mente para mente em um grupo e que se torna parte da história do trabalho, da cultura daquele grupo.

Quando não se trabalha junto ou quando o indivíduo está isolado, excluído, corre o risco de perder esta habilidade. Por outro lado, dentro de um grupo se alguém inicia o processo cooperativo isto se transmite de forma tácita - e com o tempo - os indivíduos passam a se interessar pelos afazeres uns dos outros, para aprender e para ajudar.

A cooperação é a habilidade que fundamenta a construção do conhecimento, pois somos animais sociais e como diz Bakhtin "a intersubjetividade é anterior à subjetividade"ou seja, para sermos nós  mesmos (sujeitos), temos que primeiro dialogar, cooperar, observar, copiar, imitar, para só depois nos individualizarmos.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Nos tempos de crise a Linguagem reencontraria a sua utilidade

Matérias hoje em O Globo: Menina escapa de massacre na França; Mulher baleada em PAM por policiais; Versão para Código Penal gera polêmica; Escola de Realengo - após o massacre  - dá aula de superação.  (Em 07/09/2012 - O GLOBO).

Para entender estes acontecimentos, fico com as palavras de Michèle Petit - em "Arte de Ler - ou como resistir à adversidade", que em seu livro  cita Le Clezio, Haï, Paris, 1987.

"A doença, a loucura , os perigos de morte emergem, de tempos em tempos, e eles não são acidentes.  São os sinais da necessidade de se expressar. Os povos indígenas aprenderam a reconhecer estes sinais, sabem que a necessidade da linguagem está nessas crises. (...)
Quando surge um desses sinais ao acaso, no corpo de um homem, de uma criança, ou de uma mulher, é que toda a sociedade está ameaçada. (...)
Tudo o que havíamos refutado - é preciso que fale......"

No filme, Tiros em Columbine" o Diretor entrevista vários artistas e a pergunta era; "O que você diria ao assassino? " .  Um dos entrevistados -  Marilyn Manson - foi quem (estranhamente) deu a resposta mais intrigante. Ele disse:
___O que eu diria? Eu não diria nada, eu deixaria ele falar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A razão é histórica - Monteiro Lobato - Vinícius e tantos outros


Recentemente Monteiro Lobato foi proibido de ser lido nas escolas. Esta proibição se deu porque algumas poucas pessoas clamaram que Monteiro Lobato era um preconceituoso. O texto que foi demonizado definia Tia Anastácia como uma macaca subindo na árvore. Acredito que, se Monteiro Lobato escrevesse hoje - escreveria de outra forma. A razão - hoje- o faria empregar a palavra de uma forma mais cuidadosa, e sua linguagem seria mais amorosa e mais delicada.Creio que as pessoas esquecem de que a razão é histórica e a Inteligência é coletiva e isto significa que o ser social em cada um de nós tem a voz do nosso tempo. Hegel - filósofo alemão do século XIX - tem razão, quando afirma que a razão se transforma na história.

Por que não foi demonizado Vinícius de Moraes? Com a letra abaixo:

Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza,
Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora,
Qualquer coisa que sente saudade.
Um molejo de amor machucado,
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher,
Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão.

Os pais das crianças cantam vinícius. Os jovens cantam Vinícius. Vamos demonizar Vinïcius? Que insistiu em resgatar a mulher Amélia? Talvez hoje ele não escrevesse este poema. Não sei. Mas não vi nenhum movimento para retirar esta música de cartaz. Será que o motivo é que a nossa sociedade é fortemente patriarcal? Misógina? Racismo ou misoginia, que preconceito vai ganhar?

É preciso ter cuidado, pois este movimento de demonizar Monteiro Lobato impediu que se levasse para as salas de aula uma discussão do conceito de razão, historicidade e de se discutir o preconceito como uma marca social, mais que individual> Nossas crianças e jovens merecem mais respeito com sua inteligência. E nossos professores merecem  mais oportunidades de discutir a literatura e linguagem no tempo e no espaço.

E nem falo de Francisco Alves, que nunca foi demonizado e nem estudado, e que fazia toda a sociedade brasileira cantar as suas músicas. Uma delas dizia:
"Enquanto eu tiver forças para falar, olhos para ver hei de ter opinião, não é qualquer mulher que consegue dominar o meu coração. O tipo louro é um tesouro, mas perto do moreno é café pequeno...".

Se você quiser saber o finaL dessa música, faça uma busca na Internet pelas letras de Francisco Alves e veja a letra 216, chamada Tipo Sete.
http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/francisco-alves/1797

A razão é histórica e devemos aproveitar estes exemplos para ensinar e aprender. É preciso ter cuidado porque preconceito leva a preconceito! E onde impera o preconceito, racismo e misoginia florescem.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Ciclo da Aprendizagem - O grupo como matriz do indivíduo


O grupo é a matriz do indivíduo, porque é a partir da socialização que o sujeito desenvolve a sua forma de pensar, num amplo espectro de percepções, que permite ao ser humano ampliar seu ponto de vista sobre as questões. É justamente por este motivo que a atenção do líder tem que se voltar para o grupo, para perceber o que está sendo aprendido na troca de conhecimentos, no diálogo, na conversa.

Se quisermos solucionar problemas temos que voltar a nossa atenção para o grupo e captar como as pessoas se comportam quando interagem. desta forma vamos perceber habilidades, limitações e problemas que não perceberíamos se observássemos a pessoa  individualmente.

Um bom líder volta-se para o grupo e percebe o que não está sendo dito, capta os silêncios e estimula o diálogo - o processo de socialização de experiências pode criar uma lente especial, para dar sentido ao trabalho que está sendo realizado.

O espírito comum no grupo é obra de um líder capaz de ouvir, de dar voz a todos e de fazer com que todos se expressem, com confiança, sem receio de retaliações.

O Professor Paulo Freire fala, com muita propriedade, em ciclo gnosiológico, retratando no ciclo do conhecimento um fenômeno, a partir do qual o indivíduo enxerga o que antes não via. Podem ocorrer dois cenários: o indivíduo enxergou e sabe que é melhor ficar quieto, para não se indispor e se prejudicar ou o indivíduo enxerga e aprende com o grupo e desenvolve melhor o seu trabalho. Um líder tem obrigação de perceber qual dos dois cenários manifesta-se a partir de sua orientação pessoal. Nada acontece por acaso - o líder tem que se comprometer com o que acontece a sua volta, tem que se comprometer e dar sentido ao trabalho de cada um que trabalha sob sua direção.

Michel Serres em seu livro “Filosofia Mestiça” descreve o processo de aprendizado como a travessia de um grande rio no qual a transformação vai ocorrendo nas descobertas e nos enfrentamentos da busca pela outra margem. Quando nasce o espírito comum, o  grupo se fortalece e cada um recebe esta força. A questão aqui reside em saber: este espírito comum - ira, descaso, silêncio, medo, violência - surgiu como resposta à exclusão, às injustiças? Ou se ele surgiu como resposta a um esforço ético coletivo - diálogo, solidariedade, compreensão, bem comum - para viver o sentido de uma vida plena, de um trabalho repleto de significado?

O que impera no grupo:  autoritarismo ou democracia? As pessoas falam ou têm medo? As pessoas se expressam e contribuem com confiança? Liderança e democracia estão inextricavelmente conectados, provavelmente porque tanto um quanto o outro necessita do diálogo para crescer. 

Um líder autoritário enfraquece o Eu individual e o Espirito comum tem sua força moral fragilizada - neste caso o coletivo é pobre e volta-se para interesses pessoais -  o crescimento moral não acontece e como retratou o filósofo Tucídides ao escrever sobre a Guerra do Peloponeso - o bem comum fracassa imperceptivelmente.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Da Capo - Conhecimento inato e adquirido


Da capo significa de volta ao início - significa repetir

As tradições filosóficas e místicas ensinam a desenvolver a capacidade de se ir além do conhecimento que se tem, ir além da força moral que se possui, estimulando a construir um caminho novo sobre o antigo caminho  já trilhado.
 É o Ponto de Mutação. E neste retorno sobre os próprios passos, qual conhecimento deve ser levado na bagagem? Inato ou adquirido?
O que a tradição ensina é que quando estamos em situações nas quais não sabemos como agir, o que falar, o que fazer devemos acionar este espectro de forças acumuladas que desconhecemos - mas que a fé e a razão nos ajudam a perceber –  chaves muito importantes e que devem ser estimuladas e vivenciadas  ao se  meditar sobre as repetições de padrões na nossa vida. 

Esta repetição de padrões dá-se na experiência do dia a dia - é o lado empírico da vida. Mas cada um de nós tem acesso a um conjunto de forças pessoais e outras tantas atávicas ou instintuais - mas que devemos acessar se quisermos mudar o cenário de nossa v ida.
o Mito de Sísifo é um Da capo. As experiências repetidas também o são. A possibilidade de refazer caminhos também. Cada dia que começa é uma nova promessa ...Da Capo! E que  se leve na mochila as duas maneiras de empregar nossas forças:  o conhecimento inato e o conhecimento adquirido.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Somos clinámem uns dos outros? Epicuro e o conceito de sociedade como clinámen do indivíduo


Clinâmen é um conceito central na doutrina atomista de Epicuro (filósofo pré-socrático) e simboliza o desvio imprevisível de átomos, cuja representação é a queda aleatória dos átomos, que no choque entre si, mudam suas trajetórias.  O nome foi aplicado por Lucrécio,  poeta e filósofo latino que viveu no século I a.C -  ao estudar a doutrina atomista de Epicuro. De acordo com Lucrécio, o desvio imprevisível ocorre "em nenhum lugar ou tempo fixo": Significa  que "quando átomos se movem (..) no espaço em um tempo completamente incerto e em lugares incertos", (...) a natureza se reproduz. Este desvio imprevisível e o choque mudam trajetórias e simbolizam uma mudança de mentalidade - uma nova visão - é isto que se chama clinámen. O Clinámen simboliza o sol surgindo no horizonte ou o seu oposto - o imenso espaço vazio sem luz e sem cor. Passar por este fenômeno não é simples e é necessário resistir  - é preciso contar com algo que não vemos - a espiritualidade - e aprendermos a conjugar razão e fé.

Na vida em sociedade, de uma forma às vezes imprevisível, nos conhecemos, nos relacionamos, e às vezes algo ou alguém nos faz mudar a trajetória. A sociedade é clinámen do indivíduo. Nossa história é uma história de conjunto. O mundo físico nos mostra cadeiras, salas, pessoas, paredes, mas no mundo sub-atômico o cenário se apresenta em um efeito de prótons e elétrons, numa teia conectada - um fio de Ariadne que a tudo conecta.

Não importa a partir de qual conhecimento você tece suas considerações:  Se você usa a espiritualidade existem milhares de exemplos conclamando você a uma percepção de conjunto. Mas se você é um cientista, certamente sabe que a sociedade está dentro do indivíduo como um fato social (Durkheim) e que o indivíduo está em sociedade, transformando, mudando as pedras de lugar, mudando o desenho.


E seja pela espiritualidade ou pela ciência - recebemos de volta o que entregamos à natureza. Gurdyeff, um filósofo russo dizia: "Se você ajuda os outros, você será ajudado. Talvez amanhã, talvez em cem anos, mas você será ajudado. A Natureza precisa saldar a sua dívida... É uma lei matemática e toda a vida é matemática".


Na  metáfora de o poema "O Relógio de Acaz" há uma representação dessa clinámen, dessa conectividade, desta responsabilidade conjunta...desse retorno.

O Relógio de Acaz

A verdade meu amigo não se espante,
É uma obra de Ariadne, em tênue fio. 
Toda Vida, todo tudo neste mundo
Está coeso, num mistério tão profundo,
Que entender este desenho é um desafio.

Quem tece o fio de Ariadne que se esconde,
E serpenteia para além de nem sei onde?
Se o que eu faço ou não faço, é uma engrenagem,
Que arrasta a consciência em torvelinho,
Quem cria a tudo num roteiro mais profundo,
Que a tudo une, em aparente desalinho?

Transmutar a engrenagem com ciência,
É perceber que entre o caos e a coerência,
A vida cria nossa vida deste fio.
Então vale a pena caminhar com mais cuidado,
Ao conceber um novo filme desta história.
E que os anjos nos concedam tal vitória!

E um dia....
Frente a frente à Grande Luz,
Guardadora dos portais do paraíso,
Cada um vai contar a sua história,
Computar aprendido e ensinado
E retornar, apagando da memória,
Retrocedendo os dez graus já declinados!
(Regina Moraes - 2006)