domingo, 3 de julho de 2011

A incerteza ética - Edgar Morin

A ecologia da ação indica-nos que toda ação escapa, cada vez mais, à vontade de seu autor, na medida que entra no jogo das inter-retro-ações do meio onde intervém.               

(....) O Fausto de Goethe ilustra o mau resultado de uma boa intenção, e a feliz consequência de uma má intenção.Fausto deseja a felicidade de Margarida, mas tudo o que faz produz infelicidade. Mefisto trabalha pela perdição de Margarida, mas desencadeia a intervenção divina, que a salva.

Daí este primeiro princípio: os efeitos da ação dependem não apenas das intenções do autor, mas também das condições próprias ao meio onde acontece.
Ao considerar o contexto do ato, a ecologia da ação introduz a incerteza e a contradição na ética.

(...) Esse vínculo entre incerteza e ética aparece quando se toma em consideração o ato moral, não isoladamente, mas na sua inserção e nas suas consequências no mundo.


(...) Necessitamos de um conhecimento capaz de levar em consideração as condições da ação e a própria ação, ou seja um conhecimento capaz de contextualizar antes e durante a ação. 


Nada é melhor do que a boa vontade.  Mas ela não basta e pode enganar-se. Um pensamento incorreto, mutilado, mutilador, mesmo com as melhores intenções, pode conduzir a consequências desastrosas. (...) A consideração de toda essa complexidade, a partir dos efeitos perversos ou inesperados do ato, exige trabalhar pelo pensar bem, conforme a expressão de Pascal, ou seja, pensar de maneira complexa.

(Edgar Morin - O Método 6 - Ética)

sábado, 25 de junho de 2011

Fernando Pessoa - Alague o seu coração de esperanças

Segue o teu destino...
Rega as tuas plantas; 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
de árvores alheias

Fernando Pessoa

sábado, 11 de junho de 2011

Café Filosófico com Paulo Freire

Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes.


Esta frase de Paulo Freire fornece a profunda dimensão do conhecimento e do papel do outro na nossa vida e em sociedade. As nossas convicções não podem nos levar por caminhos que nos levem a não reconhecer o outro. Pelo contrário, reconhecendo-o em suas idéias, podemos crescer, aprender e se formos amorosos poderemos impedir que erros sejam cometidos. É apreciando o saber do outro que podemos ser justos e verdadeiros e encontrarmos as soluções que confrontam o nosso tempo.


As terríveis conseqüências do pensamento negativo são percebidas muito tarde (Paulo Freire).


A recomendação é caminhar com cuidado, percebendo o que está a volta. A palavra de ordem é "devemos perceber o pensamento negativo em nós mesmo e no outro". Esta arte está  disponível dentro de cada um de nós. Mas para isso temos que observar, nos incomodarmos com o outro, percebê-lo, perceber a nós mesmos e isso exige reflexão. É urgente perceber o pensamento em si mesmo e no semblante da pessoa, pois o que você responderá diante da esfinge que pergunta: Que consequências podem advir deste pensamento negativo? 
E não importa se é seu ou do outro. Esteja atento! Disto depende a vida.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Palavras de uma Lagarta. Ou é de Alice?

"Metáfora" proposta: Cada um passa pelas transformações do seu jeito. Não há erro, uns são Lagarta, outros Alice, mas todos estão crescendo e se transformando e têm percepções distintas do processo pessoal e alheio.

A Lagarta e Alice olharam-se por algum tempo. Quem é você? , disse a Lagarta.
"Acho que infelizmente não posso me explicar, minha senhora, disse Alice, "porque já não sou eu, entende"? "Ter muitos tamanhos num mesmo dia, é muito confuso".  
"Não é" , disse a Lagarta.
"Bem, talvez ainda não pense assim.", "Mas quando se transformar numa crisálida (...) talvez seus sentimentos sejam diferentes", disse Alice. "O que eu sei é que eu iria me sentir esquisita".
"Nem um pouco", disse a Lagarta. 
"Você!" , disse a Lagarta com desdém.  "Quem é você?"
 O que as levou de volta ao começo da conversa. 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O que é a vida racional?

O que é uma vida racional?

Segundo Edgar Morin não existem critérios racionais  que ajudem a definir quando uma uma vida é racional. Ele pergunta: Nunca ultrapassar a dosagem prescrita é racional? Morin traça a diferença entre racionalidade e racionalização. Segundo o autor, racionalização se autoconfirma em seus textos sagrados, é fechada, dogmática, não aceita mudanças, nem críticas. Já a racionalidade é aberta, e aceita que suas próprias teorias sejam biodegráveis, que possam eventualmente ser superadas por argumentos ou aperfeiçoamentos que as contradigam (Edgar Morin - Amor, Poesia, sabedoria, Editora Bertrand Russel, página 54). 


Vamos ser racionais, a partir da racionalidade (uma das propriedades da mente pensante) e não a partir da racionalização, que se dá a partir do que é aprendido na cultura, com tudo o que nos foi "ensinado'.  Temos que ser racionais, inventar a razão, indo além do processo cultural, para que possamos avaliar corretamente alternativas e chegarmos a soluções e decisões inéditas.


Castoriadis disse: o homem é esse animal louco que inventou a razão. 



segunda-feira, 16 de maio de 2011

A condição humana - Hannah Arendt - Vamos debater o conceito?


 Livro: “A Condição Humana” (Hannah Arendt)


Hannah Arendt, pensadora política e filósofa, Conhecida como uma pensadora da liberdade, nasceu na Alemanha em 1906 e faleceu em 1975.

No livro "A Condição humana"  Hannah Arendt discute a importância do espaço público para o exercício da liberdade humana.  

“Embora todos comecem a vida inserindo-se no mundo humano através do discurso e da ação, ninguém é autor ou criador da história de sua própria vida. Em outras palavras, as histórias, resultado da ação e do discurso, revelam um agente, mas esse agente não é autor nem produtor. Alguém a iniciou e dela é o sujeito, na dupla acepção da palavra, mas ninguém é seu autor.”

O que nos convida à reflexão também é que em tempo de Liberalismo, de Direitos Individuais desconectados do bem comum geral, tempos de atomização, o espaço público, onde se forma a opinião pública, se fragiliza porque cada um corre atrás de seus próprios interesses, em detrimento de questões universais.

Caso queira debater, estou aqui esperando a sua postagem....

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Normose: uma doença no campo ético

A NORMOSE é aquele comportamento que leva a uma percepção de que “se todo mundo faz, eu também vou fazer”. Todo mundo leva caneta e lápis para casa, eu também vou levar; todo mundo cobra propina eu também vou cobrar, todo mundo desvia material, eu também vou desviar. A normose é uma doença, então.... sejamos a diferença a partir de nossas práticas. É a falta de princípios éticos que norteiem as práticas, que faz surgir a normose, que é uma patologia que pode infectar a cultura, seja nas organizações, seja em sociedade.


"Necessitamos de um mutirão em prol da educação da alma, que nos possa desvelar uma ética natural, derivada da consciência desperta de onde emana a vivência amorosa e solidária. mais do que nunca necessitamos de um desespero sóbrio e de uma revolta lúcida para transcender o fatídico cenário normótico, rumo aos horizontes da excelência e do florescimento humano" (Crema:2001:12).(Cavalcante et al. Liderança e motivação. 2ª. Edição. Fgv.2008:19)

Mas afinal o que é a Ética? Ética é um conjunto de princípios que nos é ensinado e pelos quais aprendemos a pautar a nossa vida. Nem sempre todos agem com base nos princípios que aprenderam, pois a ética é teórica. Já a moral representa-se nas ações que praticamos. A moral é prática e a Ética é conceitual. Assim ficar com um objeto que não nos pertence é imoral porque é uma prática errada e é antiético porque fere os princípios que aprendemos. Pode-se ver que Ética e Moral são os lados opostos de uma mesma moeda.

A cultura organizacional em cada empresa precisa de gestores/ líderes para construir de forma conjunta relações saudáveis e éticas entre todos os parceiros (stakeholders), pois é na relação que se confirma o alcance da missão da empresa por funcionários, fornecedores, clientes, comunidade no entorno, etc. São muitos atores relacionando-se e é por este motivo que as práticas devem sempre ser acompanhadas / revistas, pois a ética é transformadora de mentes e é a partir das transformações que ocorrem no campo ético, que é relacional, que se fazem as grandes transformações na mente, levando às mudanças no mundo, nas empresas, nas instituições.

No escravismo os princípios éticos adotados levavam as pessoas a agirem de forma a verem outro ser humano como mercadoria. Mas os tempos mudaram e os princípios éticos se transformaram levando a uma grande transformação no campo da moral.

A vida é muito complexa, no entanto devemos nos esforçar para pautar nossas práticas a partir de princípios éticos. Em sociedade ou na empresa é o ser humano quem vai incorporar valor ético em tudo o que faz, e como o campo ético é relacional, podemos sim fazer a diferença.

 Estas relações entre Ética (princípios) e Moral (práticas) a partir da adoção dos valores propostos e uma constante revisão de práticas e pincípios envolvendo a todos é que se chama de Responsabilidade Social.

Assim é importante que as empresas, as instituições, os grupos, a família, a comunidade, o país, os indivíduos, estejam sempre fazendo uma revisão em suas práticas, a partir da reflexão sobre os princípios éticos, para que tudo se resulte em um agir renovado com base em princípios éticos incorporados às práticas (um novo ethos), e progressivamente se construa, de forma conjunta, uma sociedade ética. Só assim a doença normose pode ser mantida sob controle.